{"id":245,"date":"2026-06-09T11:24:22","date_gmt":"2026-06-09T14:24:22","guid":{"rendered":"https:\/\/hall.swimchannel.net\/?p=245"},"modified":"2026-06-09T13:01:58","modified_gmt":"2026-06-09T16:01:58","slug":"manoel-dos-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hall.swimchannel.net\/index.php\/2026\/06\/09\/manoel-dos-santos\/","title":{"rendered":"Manoel dos Santos"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Texto: Carlos Eduardo Dudorenko e Pedro Junqueira<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignleft size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"614\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/hall.swimchannel.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chamada-manoel-santos-614x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-147\" style=\"aspect-ratio:0.599618605422436;width:325px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/hall.swimchannel.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chamada-manoel-santos-614x1024.jpg 614w, https:\/\/hall.swimchannel.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chamada-manoel-santos-180x300.jpg 180w, https:\/\/hall.swimchannel.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chamada-manoel-santos-768x1280.jpg 768w, https:\/\/hall.swimchannel.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chamada-manoel-santos-922x1536.jpg 922w, https:\/\/hall.swimchannel.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chamada-manoel-santos.jpg 975w\" sizes=\"(max-width: 614px) 100vw, 614px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria de Manoel dos Santos nos remete ao interior de S\u00e3o Paulo, dado geogr\u00e1fico pertinente porque \u00e9 deste mesmo interiorz\u00e3o paulista que vieram quase todos os nossos melhores nadadores masculinos at\u00e9 hoje. Tetsuo de Mar\u00edlia, Manoel de Guararapes, Fiolo de Campinas, Prado de Andradina, Gustavo Borges de Franca e C\u00e9sar Cielo de Santa B\u00e1rbara d\u2019Oeste. A curiosidade geogr\u00e1fica fora de s\u00e9rie \u00e9 que o pai de Manoel, um imigrante portugu\u00eas, era propriet\u00e1rio de um hotel em Andradina onde ele hospedou, durante muito tempo, um casal de ga\u00fachos que migrou para l\u00e1, e que, este casal, gerou, entre v\u00e1rios campe\u00f5es nadadores, um outro recordista mundial brasileiro, o seu ca\u00e7ula, Ricardo Prado. O pai de Manoel, al\u00e9m de ter gerado um recordista mundial e hospedado os geradores de outro recordista mundial, era dono tamb\u00e9m de um cinema, onde seu filho garoto obrigava o operador das pel\u00edculas repetir v\u00e1rias vezes as cenas dos filmes do Tarzan nas quais o Johnny Weissmuller dava suas bra\u00e7adas. Manoel assistia e observava o grande campe\u00e3o ol\u00edmpico e tentava imit\u00e1-lo na Represa do Ramalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Treinamento de Internato<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No seu quarto ano de vida, Manoel passou a maior parte do tempo em um hospital, se recuperando de recorrentes amea\u00e7as de pneumonia e similares que seu mirrado e fragilizado corpo sofria. O pai viu na nata\u00e7\u00e3o a salva\u00e7\u00e3o daquele drama. Antes de completar onze anos, no come\u00e7o de 1950, Manoel foi estudar como interno em Rio Claro, no Gin\u00e1sio Koelle, um col\u00e9gio alem\u00e3o. O menino se viu afastado da fam\u00edlia, a qual ele s\u00f3 via nas f\u00e9rias e semana santa, quando ele pegava o trem para o oeste do estado. L\u00e1 em Rio Claro, na rotina r\u00edgida do col\u00e9gio, Manoel se ajustou bem com o programa natat\u00f3rio. Numa piscina de uns 20 metros, sob a orienta\u00e7\u00e3o de Bruno Buch, seu primeiro mestre, ele passou a treinar, competir e fazer parte do time do gin\u00e1sio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nadador mais forte do grupo era um garoto tr\u00eas anos mais velho que Manoel, chamado Jo\u00e3o Gon\u00e7alves, futuro campe\u00e3o e recordista sul-americano no nado de costas e atleta multiesportista participante de v\u00e1rias olimp\u00edadas. Mas Jo\u00e3o tinha um estilo, como nadador, chamado na \u00e9poca de brigador. Na base da for\u00e7a bruta. Por outro lado, a namorada do Jo\u00e3o, Inge Borg, deslizava na \u00e1gua e era considerada uma estilista, da escola do Weissmuller que inspirava Manoel e que influenciou seu estilo. A vers\u00e3o moderna do estilista seria o australiano Ian Thorpe, com seu nado sem arranque de cabe\u00e7a e de bra\u00e7adas angulares, sim\u00e9tricas e flu\u00eddas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1955, Manoel dos Santos se aproximou do topo nacional. Seu nado era o costas e seu treino era mais focado neste estilo. Nos 100m livre, est\u00e1vamos em \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o na lideran\u00e7a nacional. Nossos tr\u00eas maiores velocistas da virada de d\u00e9cada e come\u00e7o dos anos 50, os cariocas Aram Boghossian, do Tijuca, S\u00e9rgio Rodrigues, do Fluminense, e o paulista pinheirense Plauto Guimar\u00e3es, tinham dependurado as respectivas sungas. O paulista Paulo Catunda e o santista Haroldo Lara eram os mais r\u00e1pidos agora. Haroldo seria nosso maior expoente at\u00e9 1957, quando largou a nata\u00e7\u00e3o, se mudou para a It\u00e1lia e se tornou cantor de \u00f3pera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mar\u00e7o de 1955, Manoel foi convocado para sua primeira competi\u00e7\u00e3o internacional, os II Jogos Pan-Americanos, na Cidade do M\u00e9xico. Desde ent\u00e3o, a partir dos seus 16 anos de idade, ele encarou estes momentos como representante nacional com excessiva responsabilidade e idealismo de atleta amador daqueles tempos. O adjetivo amador significava, antes de tudo, aquele que ama o esporte, e n\u00e3o tinha a conota\u00e7\u00e3o atual de praticante de segunda linha, ou de inocente. No M\u00e9xico, depois de uma viagem de avi\u00e3o militar de carreira, um DC-3, que durou quatro dias, com pernoitadas em Bel\u00e9m, Trinidad e Tobago e Cuba, Manoel competiu muito mal. Sua principal lembran\u00e7a do torneio foi do momento em que ele saiu desolado da prova, caiu numa bela piscina vizinha de aquecimento e, fingindo estar se soltando, chorou muito, solitariamente, at\u00e9 a \u00faltima l\u00e1grima se perder escondida no meio do cloro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano seguinte, em fevereiro de 56, em Vi\u00f1a del Mar, no Chile, aconteceu a d\u00e9cima-terceira edi\u00e7\u00e3o do campeonato sul-americano. Das doze anteriores, o Brasil s\u00f3 tinha derrotado a Argentina uma \u00fanica vez, na mesma Vi\u00f1a del Mar, em 1941. Manoel dos Santos, escalado para os 100m livre, ficou em quinto lugar na final, e Haroldo Lara pegou a quarta posi\u00e7\u00e3o. Nos 200m costas, Manoel ficou em quarto lugar e a prova foi vencida por seu colega de Rio Claro, Jo\u00e3o Gon\u00e7alves. No revezamento 4x100m livre, a prova teve uma final espetacular. Em primeiro, com recorde de campeonato, em 3m59s7, chegaram os peruanos. Um d\u00e9cimo de segundo atr\u00e1s, medalha de prata, chegou o Brasil. Os argentinos vieram em terceiro, nove d\u00e9cimos de segundo atr\u00e1s do Brasil. A equipe de revezamento brasileira contava com Haroldo, Manoel e Jo\u00e3o, al\u00e9m de Aristarco de Oliveira. Nas tomadas parciais, Manoel foi o mais r\u00e1pido dos quatro. Ele declarou que, naquele momento, ele percebeu que sua especialidade e futuro eram os 100m livre, e o costas era apenas um subproduto. Este clar\u00e3o, esta consci\u00eancia de onde residia seu verdadeiro talento resultou, em pouco tempo, num salto de melhora. Quanto ao Sul-Americano, como de esperado, os portenhos levaram o t\u00edtulo mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em setembro de 1956, em dois fins de semana seguidos, no Rio e em S\u00e3o Paulo, Haroldo Lara quebrou e repetiu o recorde nacional dos 100m livre, em piscina de 50m, marcando 57s8, recorde este que estava nas m\u00e3os de Boghossian desde 1948. Dois meses depois, na nova e majestosa piscina do Vasco da Gama, Manoel dos Santos n\u00e3o conseguiu obter o \u00edndice ol\u00edmpico para a prova, por dois d\u00e9cimos de segundo. Ele se confortou com o pensamento de que na pr\u00f3xima ele iria. A participa\u00e7\u00e3o da nata\u00e7\u00e3o brasileira na olimp\u00edada em Melbourne, Austr\u00e1lia, representou um ponto baixo na nossa hist\u00f3ria. Refletindo nosso talento existente nos anos de 1954 at\u00e9 1957, n\u00e3o houve um her\u00f3i salvador, e ficamos de fora de todas as finais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Velocista Se Aperfei\u00e7oa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1957, finalizado o secund\u00e1rio em Rio Claro, Manoel dos Santos se mudou para Santos. A escolha da nova cidade se deveu \u00e0 entrada na vida dele de Minoru Hirano, seu novo t\u00e9cnico, mestre e quase pai. Hirano entrou pra nata\u00e7\u00e3o pelas vias do servi\u00e7o de tradu\u00e7\u00e3o, exercido durante a estada dos Peixes Voadores no Brasil, em 1950. Foi muito conhecimento natat\u00f3rio adquirido acompanhando e decifrando os ol\u00edmpicos e recordistas mundiais japoneses. Manoel foi morar com a fam\u00edlia de Hirano e treinar no Clube de Regatas Internacional. No fim dos anos 50, a metragem dos treinamentos, mesmo no Brasil, come\u00e7ou a aumentar substancialmente. Hirano foi contra a corrente. Ele fazia Manoel nadar uns mil metros e depois trabalhava perna, posicionamento de bra\u00e7ada, \u00e2ngulo do queixo etc., e finalizava com uma meia d\u00fazia de tiros de 25m. Muitas vezes ele n\u00e3o podia estar presente aos treinos, e Manoel chegava sozinho para a sess\u00e3o com um papelzinho na m\u00e3o ou a sequ\u00eancia decorada na cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em dezembro de 1957, Manoel bateu o recorde nacional de Haroldo Lara e sul-americano do argentino Pedro Galv\u00e3o, em Santos, em piscina de 25 metros (ainda v\u00e1lido naquele ano), marcando 56s5. Na sequ\u00eancia, em fevereiro de 1958, foi realizado o Sul-Americano seguinte, em Montevideo. Pela primeira vez na hist\u00f3ria de trinta anos e catorze edi\u00e7\u00f5es do torneio, o vencedor dos 100m livre venceu a prova com folga, n\u00e3o na batida de m\u00e3o, mas com dois segundos e meio de frente ou quase cinco metros de dist\u00e2ncia. Seu nome, Manoel dos Santos. O \u00fanico brasileiro at\u00e9 ent\u00e3o, al\u00e9m de Armando Freitas em 1939, a conquistar este ouro. A medalha de prata foi para o quase invenc\u00edvel Ismael Merino Mart\u00ednez, o peruano tricampe\u00e3o da prova em 52, 54 e 56. O tempo de Manoel nas eliminat\u00f3rias, 56s6, representou novo recorde sul-americano, j\u00e1 que a partir de 1958, todas as federa\u00e7\u00f5es internacionais oficializaram a regra de s\u00f3 considerar v\u00e1lidos os recordes em piscina de 50 metros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Manoel ajudou o Brasil a varrer todos os ouros das tr\u00eas provas de revezamento e conquistar os imprescind\u00edveis pontos duplos destes eventos. Ele n\u00e3o p\u00f4de fazer mais porque a prova dos 200m livre foi retirada da programa\u00e7\u00e3o do Sul-Americano para igual\u00e1-la ao programa ol\u00edmpico. Sylvio Kelly ganhou os 400m livre, Jo\u00e3o Gon\u00e7alves levou as provas de costas e Ot\u00e1vio Mobiglia as de peito e, no feminino, Silvia Bitran venceu todas as provas do nado livre. Finalmente, 27 anos depois do seu primeiro t\u00edtulo, o Brasil reconquistava o t\u00edtulo m\u00e1ximo do nosso subcontinente. Esta onda positiva na nossa nata\u00e7\u00e3o iria crescer a reboque da fenomenal performance de Manoel nos anos seguintes, muito maior que qualquer experi\u00eancia natat\u00f3ria que o Brasil j\u00e1 tinha vivenciado at\u00e9 ent\u00e3o. N\u00e3o deixa de ser apropriado notar que aqueles eram os anos dourados de JK, o ano da nossa primeira Jules Rimet, os tempos de surgimento da Bossa Nova e, no pequeno mundo dos amantes da nata\u00e7\u00e3o, a \u00e9poca de nosso Sputnik, Jato, o homem mais r\u00e1pido do mundo na \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/23303-manoel-e-pele.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/23303-manoel-e-pele.jpg\" alt=\"Manoel e o Rei Pel\u00e9\" class=\"wp-image-284\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Manoel e o Rei Pel\u00e9<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano seguinte ao Sul-Americano de Montevideo, veio a primeira viagem para os Estados Unidos. As camas, na vila ol\u00edmpica montada na universidade de Chicago, eram daquelas de colch\u00e3o mole americano, estranhas e desconfort\u00e1veis para algu\u00e9m que cresceu dormindo em cama dura de col\u00e9gio de internato. O corpo dolorido e mal dormido, e as costas que n\u00e3o empinavam mais, afetaram o equil\u00edbrio do nado. Manoel dos Santos, a grande esperan\u00e7a de medalha da nata\u00e7\u00e3o brasileira nos Jogos Pan-Americanos de 1959, n\u00e3o passou de um quarto lugar nos 100m livre, nadando acima dos 58s, quando as expectativas giravam em torno dos 56s. Seu curr\u00edculo de nadador em mat\u00e9ria de Pans ficou, para sempre, aqu\u00e9m das possibilidades do seu talento. Depois do M\u00e9xico em 55 e Chicago em 59, Manoel n\u00e3o chegaria at\u00e9 S\u00e3o Paulo em 63.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seis meses depois, em fevereiro de 1960, foi a vez do campeonato sul-americano em Cali, na Col\u00f4mbia. Na relativa altitude da cidade andina, os tempos n\u00e3o foram muito bons. Mas Manoel dos Santos cumpriu seu papel razoavelmente, levando o ouro de bicampe\u00e3o dos 100m livre e liderando nossos revezamentos para conquistar mais dois ouros e uma prata. A peleja contra os argentinos foi muito acirrada, tanto no feminino quanto no masculino. No final, suado, trouxemos o primeiro bicampeonato da hist\u00f3ria. Cali viu o aparecimento daquele que iria se consagrar, durante a d\u00e9cada de 60, como o maior nadador de Sul-Americanos de todos os tempos, o portenho Luis Alberto Nicolao. Aos 15 anos, Nico, futuro recordista mundial dos 100m borboleta e, juntamente com Alberto Zorrila, melhor nadador argentino da hist\u00f3ria, conquistou seu primeiro ouro individual na sua modalidade mais famosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1960, Manoel dos Santos j\u00e1 representava o Pinheiros. Mas ele nunca treinou sob a orienta\u00e7\u00e3o de Sato, o conhecido t\u00e9cnico pinheirense. Manoel continuou sempre seguindo as diretrizes determinadas por Hirano, seu mestre de Santos. Ele usava a piscina do Pinheiros, e \u00e0s vezes a do Corinthians, durante o ver\u00e3o e, no inverno, descia a serra e dava suas bra\u00e7adas no Clube de Regatas Internacional. Em julho de 60, durante os preparat\u00f3rios finais pr\u00e9-ol\u00edmpicos, no Rio de Janeiro, Manoel quebrou convincentemente seu recorde sul-americano dos 100m livre, marcando 55s6. Este feito o posicionou como forte concorrente \u00e0 medalha ol\u00edmpica em Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A \u00danica Olimp\u00edada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em agosto, a equipe brasileira de nata\u00e7\u00e3o partiu para a Europa. Primeiro, uma parada sem sentido em Portugal, para os Jogos Luso-Brasileiros. Ou melhor, com sentido pol\u00edtico, determinado pela chefia militar nos esportes ol\u00edmpicos brasileiros, t\u00edpica daqueles tempos. O Major Padilha era nosso eterno chefe de delega\u00e7\u00e3o. Em Lisboa, numa piscina com \u00e1gua a 13 graus de temperatura, nossos nadadores competiram contra um time inexistente, que sempre foi a nata\u00e7\u00e3o de Portugal. O resultado foi uma amigdalite em nossa estrela maior, \u00fanico nadador brasileiro at\u00e9 ent\u00e3o a chegar numa olimp\u00edada com chances reais de escapar do anonimato. Manoel seguiu de Lisboa, sob efeito de antibi\u00f3tico, aterrissou na cidade aberta e foi para a vila ol\u00edmpica ficar de molho por mais um dia, longe da piscina. Depois, seriam mais tr\u00eas dias pra se recuperar antes das eliminat\u00f3rias dos 100m livre, sempre a prova de abertura do programa ol\u00edmpico naqueles tempos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Roma, como n\u00e3o poderia deixar de ser, tamb\u00e9m impressionou a todos com o Est\u00e1dio Ol\u00edmpico e v\u00e1rios eventos sendo disputados nos locais da antiguidade. O est\u00e1dio aqu\u00e1tico era imponente, mas as mesas usadas para massagem ainda eram as tradicionais mesas de ping-pong. Numa sexta-feira, dia 29 de agosto de 1960, \u00e0s 8h30 da manh\u00e3, tiveram in\u00edcio as competi\u00e7\u00f5es de nata\u00e7\u00e3o com as eliminat\u00f3rias dos 100m livre masculino. Manoel dos Santos, nadando na raia 4, ganhou a terceira s\u00e9rie, com 56s3. Foi o terceiro empatado melhor tempo no geral. Vinte e quatro nadadores passaram para as semis. Tanto Nicolao, como o outro brasileiro, Fernando Nabuco de Abreu, ficaram de fora. Para se classificar foi preciso 58s2. \u00c0 noite, nas semis, Manoel voltou a vencer, empatado, na mesma terceira s\u00e9rie, na mesma raia 4, com o mesmo tempo de 56s3. No geral, agora, ele ficou em quarto lugar empatado. As primeiras tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es foram para os americanos Lance Larson e Bruce Hunter, e o australiano John Devitt, com os tempos de 55s5, 55s7 e 55s8, respectivamente. Para se classificar para a final foi necess\u00e1rio 56s5, tempo do canadense Richard Pound que, muitos anos depois, veio a se tornar famoso como o xerife da WADA, a ag\u00eancia antidoping mundial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Ouro Ol\u00edmpico Que Escorregou Pelas M\u00e3os<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia seguinte, s\u00e1bado, \u00e0s 9h10 da noite, chegou o momento da final. Manoel dos Santos foi escalado para a raia 6. Ele sabia que s\u00f3 teria alguma chance se nadasse um segundo mais r\u00e1pido do que na v\u00e9spera. Deu-se o tiro de largada, a sa\u00edda chapada daqueles dias, e foram quase 40 metros sem respirar. A prova da vida dele. Quando o bom senso gritou e ele se virou para direita para a primeira puxada de ar, Manoel n\u00e3o viu ningu\u00e9m. Hunter na raia 5, Larson na 4, e Devitt na 3, estavam fora do radar da r\u00e1pida primeira olhada. Certamente n\u00e3o estavam na frente. S\u00f3 poderiam estar atr\u00e1s, e n\u00e3o era pouca a diferen\u00e7a. Aquilo foi desnorteante. Mais algumas bra\u00e7adas at\u00e9 que Manoel localizasse a posi\u00e7\u00e3o dos oponentes. Neste \u00ednterim, muito se passou pela cabe\u00e7a dele, inclusive a possibilidade de ter escapado, tamanho o susto que levou. Nos segundos cruciais de prepara\u00e7\u00e3o para a virada, virada esta mais complicada em 1960, devido \u00e0 exig\u00eancia de toque de m\u00e3o antes da cambalhota e aos oclinhos inexistentes, Manoel estava um tanto quanto perdido e s\u00f3 foi se achar quando bateu, inesperadamente, seu antebra\u00e7o na borda da piscina. Quem estava l\u00e1 viu. Aquele assombro de velocidade bateu bem na frente nos 50m, virou por cima estabanadamente, e saiu de volta atr\u00e1s. No desespero do azar que surge quando menos se espera, s\u00f3 restou a ele acelerar tudo que tinha novamente. Na linha dos 80 metros, Manoel tinha recuperado a lideran\u00e7a. E ali chegou a hora de pagar o pre\u00e7o do imprevis\u00edvel. Apesar dele sustentar que morreu nos 20 metros restantes, a diferen\u00e7a final foi de dois d\u00e9cimos de segundo. O ouro envolveu uma das decis\u00f5es mais conturbadas da hist\u00f3ria ol\u00edmpica da nata\u00e7\u00e3o. Mas Manoel n\u00e3o era parte da controv\u00e9rsia, j\u00e1 que seu bronze tinha sido claro, no tempo de 55s4, novo recorde sul-americano.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/84553-pho10010794a.ori_.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/PHO10010794a.ori_-1024x823.jpg\" alt=\"Chegada dos 100 metros livre nos Jogos Ol\u00edmpicos de Roma em 1960. Manoel n\u00e3o aparece na foto, mas ele bateu muito perto dos dois primeiros colocados, \u00e0 frente do americano Hunter que nadou na raia 5. Fonte: \" class=\"wp-image-281\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Chegada dos 100 metros livre nos Jogos Ol\u00edmpicos de Roma em 1960. Manoel n\u00e3o aparece na foto, mas ele bateu muito perto dos dois primeiros colocados, \u00e0 frente do americano Hunter que nadou na raia 5. Fonte: 1960 &#8211; Comit\u00e9 International Olympique (CIO) &#8211; www.olympic.org<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Manoel dos Santos foi para o p\u00f3dio feliz com seu bronze. Dando continuidade ao pequeno legado ol\u00edmpico deixado por seu \u00eddolo Tetsuo, ele se contentou com uma medalha ol\u00edmpica. Mas em pouco tempo ele perceberia que poderia mais. E mais seria o status de mais r\u00e1pido do mundo. Esta seguran\u00e7a adquirida foi condi\u00e7\u00e3o sine qua non para que ele galgasse mais alto.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/727ac-pho10010168a.ori_.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/PHO10010168A.ori_-721x1024.jpg\" alt=\"Podium dos 100m livre nos Jogos Ol\u00edmpicos de Roma. John Devitt (AUS) em 1o. lugar, Lance Larson (USA) em 2o. e Manoel dos Santos (BRA) em 3o.\" class=\"wp-image-280\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Podium dos 100m livre nos Jogos Ol\u00edmpicos de Roma. John Devitt (AUS) em 1o. lugar, Lance Larson (USA) em 2o. e Manoel dos Santos (BRA) em 3o. Fonte: 1960 &#8211; Comit\u00e9 International Olympique (CIO) &#8211; www.olympic.org<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/344c3-medalhistas_roma_1960.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/344c3-medalhistas_roma_1960.jpg\" alt=\"Os tr\u00eas medalhistas dos 100m em Roma: Larsen, Devitt e Manoel dos Santos\" class=\"wp-image-283\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Os tr\u00eas medalhistas dos 100m em Roma: Larsen, Devitt e Manoel dos Santos. Fonte: Relat\u00f3rio Oficial da Olimp\u00edada<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Roma Manoel n\u00e3o p\u00f4de fazer mais nada. O revezamento brasileiro 4x100m medley n\u00e3o chegou nem perto das finais e Manoel tinha sido poupado, contra a vontade dele, das eliminat\u00f3rias. Terminadas as competi\u00e7\u00f5es de nata\u00e7\u00e3o, era hora de voltar para casa. A doutrina militar n\u00e3o permitia que os nadadores permanecessem em Roma e assistissem o resto dos jogos ol\u00edmpicos. Manoel foi privado, assim, de admirar Abebe Bikila entrando descal\u00e7o no est\u00e1dio ol\u00edmpico no cair da noite romana.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/225d3-abebe-bikila.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/225d3-abebe-bikila.jpg\" alt=\"Abebe Bikila, sensa\u00e7\u00e3o em Roma ao vencer a maratona descal\u00e7o\" class=\"wp-image-285\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Abebe Bikila, sensa\u00e7\u00e3o em Roma ao vencer a maratona descal\u00e7o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta de Roma, Manoel entrou no per\u00edodo t\u00edpico de relaxamento p\u00f3s-olimp\u00edada. Perdeu um pouco a forma. Mas no seu caso e na sua \u00e9poca ainda se fazia valer mais o talento do que uma base de treinamento de ciclo longo. De volta \u00e0 piscina, a recupera\u00e7\u00e3o era r\u00e1pida. O alerta veio numa inesperada derrota de dentro do Brasil. Na azarada piscina do Vasco da Gama, no campeonato brasileiro, no come\u00e7o de 1961, Manoel ficou com a prata nos 100m livre, marcando 57s8. O vencedor, um segundo inteiro na frente, foi o grande nadador do Paulistano, Athos Proc\u00f3pio de Oliveira, que, al\u00e9m de ter sido um bom nadador do livre, foi nosso melhor costista disparado na primeira metade da d\u00e9cada de 60.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A Viagem ao Jap\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os treinamentos voltaram a se intensificar. A motiva\u00e7\u00e3o para tanto foi a mesma que hoje em dia \u00e9 parte da rotina de nossos melhores nadadores mas, naquela \u00e9poca, era uma raridade. Manoel foi convidado para participar de uma s\u00e9rie de competi\u00e7\u00f5es internacionais de alto n\u00edvel, primeiro no Jap\u00e3o, e depois, acidentalmente, nos Estados Unidos. Aqueles anos foram os \u00faltimos nos quais a reputa\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o na nata\u00e7\u00e3o ainda trazia anualmente os mais talentosos convidados internacionais, principalmente americanos, para participar do campeonato nacional japon\u00eas e de outras competi\u00e7\u00f5es de exibi\u00e7\u00e3o durante o ver\u00e3o japon\u00eas. Esta tradi\u00e7\u00e3o vinha desde a d\u00e9cada de 30, quando japoneses e americanos dominavam completamente o cen\u00e1rio natat\u00f3rio.<br>Depois de uma gin\u00e1stica burocr\u00e1tica e pol\u00edtica com os cartolas paulistas, que iria ter seu pre\u00e7o cobrado no devido tempo, Manoel partiu para o Jap\u00e3o trazendo consigo Hirano. L\u00e1, ele e o argentino Nicolao, o outro convidado, se juntaram \u00e0 equipe americana representando a nata mundial, e partiram para um tour de tr\u00eas competi\u00e7\u00f5es nas ilhas nip\u00f4nicas. Nicolao e Manoel, por solidariedade geogr\u00e1fica, mas tamb\u00e9m por pragmatismo de sobreviv\u00eancia, foram companheiros pr\u00f3ximos durante aquela estada. Como muitas vezes acontece com brasileiros e hisp\u00e2nicos no exterior, um viu no outro a ilus\u00e3o de ser bil\u00edngue, quando na verdade a comunica\u00e7\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s de uma terceira &#8220;l\u00edngua&#8221;, um arrastado portunhol. Mas o que ningu\u00e9m sabia era que ali, entre os dois jovens latinos, um pouco perdidos no oriente e a reboque dos famosos americanos e japoneses, estava guardada escondida metade dos recordes mundiais de velocidade na nata\u00e7\u00e3o, que em breve seriam revelados para o mundo inteiro de dentro da piscina do Guanabara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Manoel deu conta do recado dele com louvor. Em T\u00f3quio, no campeonato japon\u00eas, ele ficou em primeiro nas eliminat\u00f3rias, semis e final, com os tempos de 55s1, 55s2 e 55s3, respectivamente. O maior velocista americano, Steve Clark, e japon\u00eas, Yamanaka, ficaram pra tr\u00e1s. Os 55s1 representaram novo recorde sul-americano. Naqueles tempos a homologa\u00e7\u00e3o de recordes levava semanas e, n\u00e3o raro, estes eram quebrados antes de oficializados. Foi o que aconteceu no Jap\u00e3o, porque Manoel levou o ouro tamb\u00e9m nas competi\u00e7\u00f5es em Nag\u00f3ia e Osaka, sendo que nesta \u00faltima ele abaixou o recorde sul-americano mais um d\u00e9cimo, para 55s cravados, a melhor marca da hist\u00f3ria at\u00e9 ent\u00e3o em competi\u00e7\u00f5es internacionais. A viagem ao Jap\u00e3o tornou Manoel conhecid\u00edssimo entre nadadores e t\u00e9cnicos americanos e a imprensa esportiva especializada. Foi a constata\u00e7\u00e3o de que aquele furor dos primeiros 50 metros na olimp\u00edada de Roma n\u00e3o era acidental. Ali\u00e1s, alguns passaram a prever um recorde mundial, caso Manoel melhorasse sua \u00fanica fraqueza, a complicada virada ol\u00edmpica daqueles tempos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na volta do Jap\u00e3o, via Los Angeles, nosso campe\u00e3o resolveu por um detour no Hava\u00ed. V\u00e1rios dias depois, Manoel, bronzeado, relaxado e destreinado, desembarcou em Los Angeles. Dada a sua recente fama adquirida ent\u00e3o, ele foi convidado para participar do campeonato americano naquela cidade e topou a honra. No dia 18 de agosto de 1961, Steve Clark, derrotado sucessivamente por Manoel no Jap\u00e3o, venceu a final dos 100m livre, sob estrondosa torcida. Seu tempo de 54s4 batia a marca mundial pr\u00e9via de 54s6, do australiano John Devitt, desde janeiro de 1957. Manoel n\u00e3o foi de todo mal, mas ficou em quarto lugar, nadando acima de 55s. Ainda dentro da piscina, ele foi fotografado cumprimentando Clark, para sair na edi\u00e7\u00e3o da revista Swimming World de setembro de 1961. S\u00f3 entre os dois, rolou uma promessa ou amea\u00e7a amiga. Manoel afirmou categoricamente que, ao voltar para o Brasil, bateria aquele recorde mundial. Clark escutou e n\u00e3o ousou duvidar, como revelaria no futuro. O brasileiro j\u00e1 estava h\u00e1 algum tempo perto demais do topo do mundo para n\u00e3o acreditar ser poss\u00edvel a fa\u00e7anha. Eis a\u00ed a diferen\u00e7a psicol\u00f3gica crucial que faz um recordista mundial.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/6a506-swimmingworld_set1961.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/6a506-swimmingworld_set1961.jpg?w=1024&amp;h=296\" alt=\"Foto da revista Swimming World de 1961\" class=\"wp-image-277\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto da revista Swimming World de setembro de 1961<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Recorde Mundial de Hora Marcada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Manoel aterrissou no Brasil, tirou as fotos cl\u00e1ssicas, de buqu\u00ea de flores na m\u00e3o, na escada do avi\u00e3o e, sem perda de tempo, partiu para os treinamentos com Hirano. Ao solicitar \u00e0 CBD e FINA a tentativa de quebra de recorde, ele tornou sua promessa p\u00fablica e deu um passo \u00e0 frente com a coragem de quem vai ter que se expor perante a todos. O desafio era nada menos do que provar ser o mais r\u00e1pido nadador do mundo. Mas a maior press\u00e3o e motiva\u00e7\u00e3o vinha do seu compromisso com tr\u00eas pessoas. Com o t\u00e9cnico Hirano, com seu pai e consigo mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda-feira, 18 de setembro de 1961, treinado como nunca antes, Manoel partiu de Santos, de autom\u00f3vel, como se dizia na \u00e9poca, com Hirano no volante, rumo ao Rio de Janeiro. L\u00e1 os dois se instalaram por conta pr\u00f3pria no Hotel Paysandu, no Flamengo. Estavam preparados para gastar duas di\u00e1rias cada um, al\u00e9m das refei\u00e7\u00f5es de prato feito do hotel. Nos jornais, estava anunciado a data da tentativa para ter\u00e7a-feira, no Guanabara ou Vasco da Gama. Mas o dia seguinte acabou sendo usado para treinamento e adapta\u00e7\u00e3o na preferida piscina vizinha ao Mourisco. O dia D foi marcado para quarta-feira, 20 de setembro de 1961.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia seguinte, um pouco antes das 4h da tarde, os dois chegaram no Guanabara. Manoel, barbado, uma cisma dele, como dizia. As depend\u00eancias do clube estavam quase desertas. Ele aqueceu, deu seus tiros de 25, e foi pro vesti\u00e1rio para uma r\u00e1pida massagem, executada pelo t\u00e9cnico. Ao sair do vesti\u00e1rio, a ficha caiu. Tr\u00eas mil pessoas apareceram do nada, ainda em tempos de ternos e at\u00e9 algum chap\u00e9u, para torcer e checar se aquilo era de verdade mesmo. Neste momento, perante tal plateia, Manoel deve ter decidido, um pouco inconscientemente, que usaria a primeira tentativa pra acalmar os nervos. Afinal, ele tinha tr\u00eas chances. Mas como ele racionalizou tal decis\u00e3o foi com a desculpa do encaixe da virada, seu ponto fraco. Bater a m\u00e3o na borda e dar a cambalhota ol\u00edmpica, sem oclinhos, nas \u00e1guas turvas do Guanabara, era como acertar a faixa do salto triplo. Para Manoel, era necess\u00e1rio mais de uma chance.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/d3e1e-guanabara.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/d3e1e-guanabara.jpg?w=300&amp;h=169\" alt=\"Manoel caminha para a largada, com a piscina lotada do Guanabara\" class=\"wp-image-273\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Manoel caminha para a largada, com a piscina lotada do Guanabara<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/8f688-manoel-no-rj.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/8f688-manoel-no-rj.jpg\" alt=\"A caminhada com todo o calor da torcida para o buscar o recorde mundial\" class=\"wp-image-282\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">A caminhada com todo o calor da torcida para o buscar o recorde mundial<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim foi. Na primeira tentativa ele ficou na virada. Sob um sil\u00eancio do p\u00fablico duvidoso, ele desceu novamente pro vesti\u00e1rio com Hirano, um pouco arrependido pelo bom tempo de passagem nos 50 metros. Mas aquilo surtiu tanto o efeito relaxante desejado como a raiva necess\u00e1ria. Com todo o apoio psicol\u00f3gico de Hirano, Manoel voltou pra piscina quinze minutos depois, l\u00e1 pelas 5h da tarde. A torcida, um pouco constrangida, calou-se como num enterro. Dado o tiro, Manoel largou de chapada na raia 4, fotografia dos jornais no dia seguinte, virou sem percal\u00e7os os 50m em 25s6, levantou a torcida nos 75m em 38s5, e bateu na borda de chegada com um tempo inc\u00f3gnito a todos, por alguns segundos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/aa3c2-largada-para-o-recorde-mundial.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/aa3c2-largada-para-o-recorde-mundial.jpg\" alt=\"Largada para a quebra do recorde mundial\" class=\"wp-image-274\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Largada para a quebra do recorde mundial. A torcida se amontoava nas bordas da piscina.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo de cronometristas oficiais era composto pelo triunvirato da nata\u00e7\u00e3o brasileira, os conselheiros t\u00e9cnicos J\u00falio Delamare e Maur\u00edcio Beckenn e o cartola Ruben Dinard de Ara\u00fajo. Ap\u00f3s um breve momento de consultas entre os ju\u00edzes e apreens\u00e3o geral do p\u00fablico e do her\u00f3i dentro d&#8217;\u00e1gua, Delamare empunhou o revolver para cima e, com tr\u00eas tiros de festim, confirmou a nova marca mundial, 53s6. O Guanabara entrou em del\u00edrio. O momento mais emocionante da carreira de Manoel se deu a seguir. Escondido entre o p\u00fablico presente, tendo viajado sorrateiramente l\u00e1 de Andradina, depois de negar sua presen\u00e7a no dia da tentativa, surgiu de surpresa o pai de Manoel. Numa fotografia, ou flagrante, como diziam, est\u00e1 registrada a grande felicidade do filho, abra\u00e7ado ao pai, de um lado, e ao t\u00e9cnico e mestre, do outro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/5132d-manoel_hirano.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/5132d-manoel_hirano.jpg\" alt=\"Manoel dos Santos abra\u00e7a seu pai e o t\u00e9cnico Hirano logo ap\u00f3s a quebra do recorde mundial\" class=\"wp-image-271\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Manoel dos Santos abra\u00e7a seu pai e o t\u00e9cnico Hirano logo ap\u00f3s a quebra do recorde mundial &#8211; fonte: arquivo pessoal de Manoel dos Santos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/c8999-recorde-mundial.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/c8999-recorde-mundial.jpg\" alt=\"A bra\u00e7ada final para estabelecer o novo recorde mundial nos 100 livre\" class=\"wp-image-278\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">A bra\u00e7ada final para estabelecer o novo recorde mundial nos 100 livre<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/9edbb-swimmingworld_nov1961.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/9edbb-swimmingworld_nov1961.jpg\" alt=\"Destaque na revista Swimming World de novembro de 1961 para o recorde quebrado por Manoel dos Santos\" class=\"wp-image-279\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Destaque na revista Swimming World de novembro de 1961 para o recorde quebrado por Manoel dos Santos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O recorde mundial durou tr\u00eas anos exatos, at\u00e9 ser batido pelo franc\u00eas Alain Gottvalles, falecido este ano. Como recorde brasileiro e sul-americano, a marca durou quase onze anos, at\u00e9 ser batida por Ruy Tadeu A. De Oliveira, em Arica, em 1972. A repercuss\u00e3o nacional e internacional foi imediata, desde as mat\u00e9rias da Gazeta ou reportagem da Manchete, at\u00e9 a cobertura na imprensa francesa, liderada pelo L&#8217;Equipe. T\u00e9cnicos e nadadores nos Estados Unidos, incluindo Clark, e Jap\u00e3o se mostraram pouco surpresos com o tempo de Manoel, de certa forma esperado por todos. N\u00e3o faltou quem o comparasse a seu grande \u00eddolo de inf\u00e2ncia, Johnny Weissmuller.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/9ba07-manoel_e_weissmuller.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/9ba07-manoel_e_weissmuller.jpg\" alt=\"Manoel dos Santos e Johnny Weissmuller fonte: arquivo pessoal de Manoel dos Santos\" class=\"wp-image-272\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Manoel dos Santos e Johnny Weissmuller<br>fonte: arquivo pessoal de Manoel dos Santos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Adeus Em Forma<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veio ent\u00e3o a \u00faltima participa\u00e7\u00e3o internacional do nadador. E que participa\u00e7\u00e3o! Em fevereiro de 1962, Manoel foi a Buenos Aires ajudar o Brasil arrancar o tricampeonato sul-americano de dentro da casa dos argentinos. Nos 100m, 200m e 400m livre o duelo com Nicolao foi sensacional, com o argentino vencendo nas \u00faltimas duas por batida de m\u00e3o e estabelecendo novos recordes sul-americanos. As pratas de Manoel, com os tempos de 2m7s3 nos 200m e 4m39s8 nos 400m, lhe valeram recordes nacionais que duraram quatro e dois anos respectivamente. Nicolao foi a grande estrela do campeonato e deu sinais do recordista mundial de borboleta que estava para brotar na semana seguinte, no Guanabara, com grande apoio de Manoel. As provas de revezamento decidiram o campeonato e o Brasil levou os tr\u00eas ouros masculinos, em provas disputad\u00edssimas com a Argentina, com Manoel sempre fechando para os brazucas. O Sul-Americano de Buenos Aires mostrou o topo de sua forma, certamente do ponto de vista aer\u00f3bico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois, o Pan de 1963, apesar de ter sido em S\u00e3o Paulo, provou estar al\u00e9m de sua paci\u00eancia e flexibilidade financeira de atleta amador. Com 23 anos rec\u00e9m completados, Manoel foi trabalhar com o pai e come\u00e7ar a ganhar a vida, princ\u00edpio familiar inquestion\u00e1vel em sua cabe\u00e7a. A n\u00f3s, brasileiros admiradores da nata\u00e7\u00e3o, ele deixou esta singela hist\u00f3ria de conquistas acima dos nossos horizontes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Recorde Mundial em video<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aproveite para rever o recorde mundial de Manoel dos Santos em excelente reportagem exibida pela ESPN Brasil:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><code>[embedyt]http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=enNmtIArXl8&amp;width=400$height=250[\/embedyt]<\/code><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/d3d07-certificado-manoel-dos-santos1.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/d3d07-certificado-manoel-dos-santos1.jpg\" alt=\"Certificado Manoel dos Santos\" class=\"wp-image-294\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><a href=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/4bd55-manoel-dos-santos-podium-ml.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/hfnb.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/4bd55-manoel-dos-santos-podium-ml.jpg\" alt=\"Manoel dos Santos retribui o carinho do p\u00fablico ap\u00f3s receber sua homenagem no Trof\u00e9u Maria Lenk de 2014 - foto de Ale Koizumi\" class=\"wp-image-300\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Manoel dos Santos retribui o carinho do p\u00fablico ap\u00f3s receber sua homenagem no Trof\u00e9u Maria Lenk de 2014 &#8211; foto de Ale Koizumi<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROMA &#8211; 1960 &#8211; A final dos 100 metros nado livre<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Hall da Fama foi atr\u00e1s do filme de uma das provas que teve uma das chegadas mais debatidas na hist\u00f3ria dos jogos ol\u00edmpicos e que possui um especial valor hist\u00f3rico para n\u00f3s brasileiros, j\u00e1 que foi nessa prova que Manoel dos Santos conquistou sua medalha de bronze ol\u00edmpica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tentamos conseguir o filme original junto ao IOC (International Olympic Comitee) por\u00e9m ainda n\u00e3o conseguimos chegar em um bom acordo para disponibilizarmos o conte\u00fado que est\u00e1 armazenado no arquivo ol\u00edmpico em Lausanne.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fomos ent\u00e3o atr\u00e1s do International Swimming Hall of Fame (www.ishof.org) para verificar se eles possuiam essa filmagem nos arquivos deles. Tivemos uma \u00f3tima receptividade de nossos colegas do ISHOF e para nossa surpresa foi disponibilizado esse video hist\u00f3rico na noite de 09 de maio, atendendo a nosso pedido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segue reportagem exibida pela CBS em 1960, com parte da prova dos 100 metros livre em Roma. Manoel dos Santos chegou bem na frente na virada dos 50 metros, por\u00e9m foi ultrapassado pelos concorrentes na virada e saiu forte, atropelando todos nos 50 metros finais, por\u00e9m acabou ultrapassado pelo australiano John Devitt e pelo americano Lance Larson, perdendo o ouro na batida de m\u00e3o, em uma das chegadas mais pol\u00eamicas dos Jogos Ol\u00edmpicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><iframe title=\"1960 Rome Olympic Games men&amp;apos;s 100m Freestyle\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_KWKtmuV5YU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Carlos Eduardo Dudorenko e Pedro Junqueira A hist\u00f3ria de Manoel dos Santos nos remete ao interior de S\u00e3o Paulo, dado geogr\u00e1fico pertinente porque \u00e9 deste mesmo interiorz\u00e3o paulista que vieram quase todos os nossos melhores nadadores masculinos at\u00e9 hoje. 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