Poliana Okimoto

Por Alexandre Pussieldi

A palavra pioneiro vem do francês “pionnier” e tem origem nas batalhas da Idade Média, quando um soldado era enviado à frente dos batalhões para abrir caminho e garantir o avanço de suas tropas.

Não existe palavra melhor do que “pioneira” para definir a carreira de Poliana Okimoto Cintra nas águas abertas do Brasil.

A modalidade é antiga. Afinal, a natação começou justamente em águas abertas, na primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, em 1896, quando as provas foram disputadas na Baía de Zea, em Atenas, na Grécia. Entretanto, as águas abertas só passaram a integrar oficialmente os Campeonatos Mundiais da antiga FINA em 1991 e tornaram-se modalidade olímpica apenas em Pequim 2008.

Poliana Okimoto foi pioneira no crescimento e no desenvolvimento das águas abertas brasileiras. Foi a primeira em (quase) tudo.

As primeiras medalhas brasileiras em Campeonatos Mundiais de Águas Abertas vieram com ela, em Nápoles, na Itália, em 2006, quando conquistou duas medalhas de prata, nos 5 km e nos 10 km.

No ano seguinte, a FINA inaugurava o Circuito da Copa do Mundo de Águas Abertas e Poliana imediatamente marcava seu território. Foi a primeira brasileira a conquistar uma medalha no circuito, bronze em Sevilha, na Espanha, em junho de 2007. Três meses depois, tornou-se também a primeira campeã de etapa da Copa do Mundo ao vencer a prova de Shantou, na China.

Em 2009, alcançou um feito histórico: tornou-se a primeira brasileira campeã geral da Copa do Mundo de Águas Abertas em uma campanha jamais repetida por qualquer outro atleta na história do circuito, vencendo nove das dez etapas disputadas.

O pioneirismo de Poliana também marcou os Jogos Pan-Americanos. No Rio de Janeiro, em 2007, conquistou a medalha de prata em uma chegada emocionante contra a americana Chloe Sutton. Quatro anos depois, em Guadalajara 2011, voltou ao pódio com outra medalha de prata.

Com o fim do Campeonato Mundial exclusivo da modalidade, as águas abertas passaram a integrar apenas os Mundiais de Esportes Aquáticos da FINA. E, novamente, Poliana foi pioneira: tornou-se a primeira brasileira medalhista em Mundiais de Esportes Aquáticos ao conquistar o bronze nos 5 km no Mundial de Roma, em 2009.

No ano anterior, as águas abertas estreavam no programa olímpico. Poliana estava lá. Ao lado de Ana Marcela Cunha, construiu uma rivalidade histórica e saudável que ajudou a transformar o Brasil em uma das maiores potências mundiais da modalidade.

Poliana foi a primeira brasileira a conquistar classificação olímpica nas águas abertas ao terminar a seletiva olímpica de Sevilha na sexta colocação. Em Pequim 2008, foi também a primeira brasileira a concluir a prova olímpica dos 10 km, terminando em sétimo lugar.

A prova olímpica dos 10 km também lhe proporcionou outro feito inédito. No Mundial de Barcelona, em 2013, Poliana realizou talvez a melhor competição de sua carreira. Foi campeã mundial dos 10 km, vice-campeã nos 5 km e medalhista de bronze no revezamento por equipes.

Naquele Mundial, o Brasil conquistou, pela primeira e única vez, o título mundial das águas abertas, superando a tradicional e favorita equipe alemã.

Essa trajetória de pioneirismo não aconteceu por acaso.

Revelada no Corinthians, Poliana destacou-se desde as categorias de base. Posteriormente integrou a histórica equipe da Munhoz Natação, um dos maiores celeiros da natação de fundo brasileira na década de 1990. Sob o comando do treinador Ismar Barbosa, acumulou recordes, títulos nacionais e conquistas sul-americanas desde as categorias infantis, já brilhando também em competições absolutas.

Muitas de suas marcas permaneceram intactas durante anos.

Sua trajetória olímpica ainda lhe reservaria outros feitos históricos. Poliana tornou-se a primeira brasileira a disputar três Olimpíadas nas águas abertas e, na última delas, alcançou a consagração definitiva: tornou-se a primeira mulher brasileira medalhista olímpica dos esportes aquáticos.

O dia 15 de agosto de 2016 jamais será esquecido.

A Praia de Copacabana estava lotada para acompanhar uma prova que mudou até mesmo a geografia simbólica do local. Até hoje, o Posto 5 é conhecido como “Praia Olímpica”.

A holandesa Sharon van Rouwendaal venceu a prova com autoridade. Atrás dela, uma disputa intensa pela medalha de prata envolvia a italiana Rachele Bruni e a francesa Aurélie Muller, em um duelo marcado por muito contato físico. Um desses lances chamou imediatamente a atenção do narrador Cláudio Uchoa, do SporTV, que percebeu a possível irregularidade ainda durante a transmissão. Ele foi o primeiro a cravar, “o bronze é do Brasil!”.

Poucos segundos atrás daquela disputa chegava Poliana Okimoto.

A arbitragem agiu rapidamente. O contato irregular de Muller sobre Bruni foi considerado ilegal, a francesa acabou desclassificada e Poliana herdava a medalha de bronze.

Na praia, as pessoas começavam a receber a notícia. A imprensa já anunciava o resultado. O público comemorava. Apenas Poliana ainda não sabia.

Enquanto se recuperava da prova e era conduzida em um carrinho elétrico para a área reservada aos atletas, via pessoas celebrando, gritando e aplaudindo sem entender exatamente o motivo daquela explosão de alegria.

Foi ao longo daquele trajeto que começou a ouvir das pessoas a confirmação histórica: era medalhista olímpica. Era bronze.

Era a medalha que faltava para as mulheres brasileiras nos esportes aquáticos olímpicos.

Uma conquista eterna.

Talvez a única vez em toda sua carreira em que Poliana Okimoto não foi a primeira, mas a última a saber.

Primeira mulher brasileira a integrar o International Marathon Swimming Hall of Fame, Poliana Okimoto torna-se agora também a primeira mulher a entrar para o Hall da Fama da Natação Brasileira.

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